LC 236/2026: o CTN ganhou um capítulo de processo administrativo fiscal | Wilson Tavares

LC 236/2026: o CTN ganhou um capítulo de processo administrativo fiscal

O Código Tributário Nacional é de 1966 e, até setembro de 2026, quase não falava de processo. Ele dizia como o crédito nasce, como se suspende e como se extingue, mas deixava para cada ente a forma de discutir o lançamento na esfera administrativa e a forma de negociar a dívida. O resultado era um mapa desigual: prazo de impugnação de 15 dias em um Estado e de 30 em outro, contagem em dias corridos aqui e em dias úteis ali, município sem segunda instância, recurso hierárquico derrubando decisão já favorável ao contribuinte.

A Lei Complementar 236, de 4 de setembro de 2026, publicada em edição extra do Diário Oficial e em vigor desde a publicação, preencheu esse vazio. São 24 pontos de alteração no CTN, entre artigos novos, parágrafos acrescentados e redações trocadas, organizados em três eixos anunciados na própria ementa: solução de controvérsias, consensualidade e processo administrativo em matéria tributária e aduaneira.

Esta aula percorre a lei inteira: o mapa das alterações, as três vias consensuais e o encaixe delas com os arts. 151, 156 e 174, o novo Capítulo IV do processo administrativo fiscal artigo por artigo, a dosimetria das multas e, no fim, as trocas de palavra que a banca vai usar para inverter o gabarito.

Em uma frase. A LC 236/2026 transformou o processo administrativo fiscal em norma geral nacional: prazos mínimos em dias úteis, requisitos obrigatórios do auto de infração, duplo grau para entes com mais de 100 mil habitantes, efeito vinculante dos precedentes do STF e do STJ dentro do contencioso administrativo e um teto para as multas. Junto, autorizou a arbitragem e a mediação tributárias ao lado da transação.

A lei que faltava no Código

Os três eixos da LC 236 não são uma divisão didática inventada depois: estão na ementa da lei. Vale entender cada um antes de entrar nos artigos, porque eles explicam por que dispositivos tão diferentes vieram na mesma lei complementar.

LC 236/2026: três eixosementa
Solução de controvérsias: a administração tributária passa a estar vinculada aos precedentes do STF e do STJ (art. 194-A), o efeito vinculante entra no contencioso administrativo (art. 208-G) e a consulta ganha efeitos definidos (art. 107)
Consensualidade: transação, mediação e arbitragem (arts. 171-A a 171-C), com reflexos nos arts. 151, 156 e 174, mais autorregularização e programas de conformidade (art. 194)
Processo administrativo: um Capítulo IV inteiro e novo, arts. 208-A a 208-J, com auto de infração, prazos, recursos, nulidades e a dosimetria das multas (arts. 113-A e 142)

A base constitucional do terceiro eixo é o art. 146, III, da Constituição: cabe à lei complementar estabelecer normas gerais em matéria tributária, e o processo de exigência do crédito é matéria tributária. Foi por essa porta que o CTN entrou num terreno que até então era de cada ente.

04/09/2026
Publicação
DOU, edição extra; vigência imediata (art. 3º)
desde já
Aplicação direta
Arts. 151, 156, 174, 138, 150, 113-A e o que não depende de lei específica
lei especial
Arbitragem e mediação
Arts. 171-A e 171-B esperam a lei que as institua
09/2028
Fim dos dois anos
Arts. 211-A e 211-B; sem adaptação, os arts. 208-A a 208-J valem diretamente
Atenção Vigência é pegadinha na largada. A LC 236 entrou em vigor na data da publicação (art. 3º), sem vacatio legis. Os dois anos dos arts. 211-A e 211-B são prazo para os entes adaptarem as leis deles, e não prazo de vigência da lei complementar. Tudo o que não depende de "legislação específica" já vale hoje: as listas dos arts. 151, 156 e 174, a decadência do art. 150, a denúncia espontânea do art. 138 e o teto das multas do art. 113-A.

Mapa das mudanças no CTN

Antes de entrar no detalhe, convém ter a lista inteira à vista. Os três quadros abaixo seguem a ordem do Código: para cada dispositivo, o que a LC 236 fez.

CTNO que a LC 236 fezEixo
107, §§ 1º a 3ºConsulta e pareceres jurídicos vinculam o órgão emissor; a solução de consulta só aproveita ao consulente.Controvérsias
113-A (novo)Razoabilidade e proporcionalidade das multas, com teto de 75%, 100% (dolo) e 150% (reincidência); multas isoladas em valor fixo ficam fora.Sanção
127-A (novo)Intimação por Domicílio Tributário Eletrônico, inclusive do procurador.Processo
138Denúncia espontânea exclui a responsabilidade "inclusive em relação à multa de mora".Sanção
142, §§ 1º a 10Lançamento para prevenir decadência, dosimetria da penalidade, reduções por pagamento e parcelamento, agravantes e atenuantes.Sanção
150, §§ 5º e 6ºDecadência do tributo lançado por homologação, com marcos expressos.Crédito
151De 6 para 10 hipóteses de suspensão: arbitragem, proposta de transação aceita, acordo de mediação, seguro garantia ou fiança aceitos; vedada caução para impugnar (§ 2º).Consensualidade
156, XII e XIIISentença arbitral favorável transitada em julgado e cumprimento do acordo de mediação extinguem o crédito.Consensualidade
161, § 3ºLiminar ou tutela provisória interrompe a incidência da multa de mora.Crédito
171-A a 171-C (novos)Arbitragem especial tributária e aduaneira, mediação e a regra de que nenhuma das três é renúncia de receita para a LRF.Consensualidade
174, § 1º, V e VIInstauração da mediação e requerimento de arbitragem interrompem a prescrição.Consensualidade
194, §§ 2º e 3ºAutorregularização antes do auto de infração e programas de conformidade com sete princípios.Sanção
194-A (novo)Decisões vinculantes do STF e do STJ vinculam a administração tributária, com parecer público em 90 dias úteis.Controvérsias
196, §§ 2º a 4ºDocumento prévio de início da fiscalização, entrega de via ao contribuinte e força policial só com justo receio reduzido a termo.Processo
199-A (novo)Convênio entre Fazendas para compartilhar fiscalização, lançamento, cobrança e estrutura do processo.Processo
201, § 2ºControle de legalidade antes da inscrição em dívida ativa.Processo
208-A a 208-J (novos)O Capítulo IV inteiro: normas gerais do processo administrativo fiscal.Processo
211-A e 211-B (novos)Dois anos para os entes adaptarem a legislação, com aplicação direta em caso de inércia.Transição

Antes e depois: o que mudou na prática

Este quadro é o retrato do impacto. À esquerda, como era em boa parte dos entes; à direita, o piso nacional que passou a valer.

TemaAntes da LC 236Depois
Prazo de impugnaçãoVariava de 15 a 30 dias conforme o ente, em regra em dias corridosMínimo de 20 dias úteis em todo o país
RecessoSó onde a lei local previaSuspensão nacional de 20/12 a 20/01
Duplo grauSem garantia geral; o STF já dissera que a Constituição não o impõeObrigatório acima de 100 mil habitantes
Requisitos do autoCada ente com a própria listaSete requisitos nacionais, com subsunção
Recurso hierárquicoEm vários Estados, o Secretário reformava decisão favorável ao contribuinteVedado contra decisão definitiva favorável ao contribuinte
Precedente do STF e do STJVinculação discutível no julgamento administrativoVinculante, e a matéria decidida a favor do contribuinte não vira auto
Teto da multaSem teto nacional; percentuais muito diferentes entre entes75%, 100% e 150% como limites
ConsensualidadeSó transação, e com receio da LRFTransação, mediação e arbitragem, sem renúncia de receita
Caução para impugnarExigida em algumas legislações locaisVedada (art. 151, § 2º)
Sobrestamento por precedenteDependia de ato do tribunal administrativoAutomático (art. 208-J)

Transação, mediação e arbitragem

O CTN só conhecia a transação (art. 171): acordo por concessões mútuas, autorizado por lei, para terminar um litígio e extinguir o crédito. A LC 236 colocou ao lado dela a mediação e a arbitragem especial tributária e aduaneira. O que distingue as três é uma pergunta só: quem decide.

Transação, art. 171

Quem decide: as próprias partes, por concessões mútuas.

Base: lei do ente indica a autoridade competente.

Terceiro: nenhum.

Mediação, art. 171-B

Quem decide: também as partes.

Base: lei fixa critérios e condições.

Terceiro: mediador sem poder decisório, escolhido ou aceito pelas partes.

Arbitragem, art. 171-A

Quem decide: o árbitro, por sentença.

Base: lei especial autoriza.

Efeito: sentença vinculante, com os mesmos efeitos da decisão judicial.

Autorizar não é instituir A arbitragem exige lei especial (art. 171-A) e a mediação, lei que fixe critérios e condições (art. 171-B). O CTN é norma geral: autoriza e desenha, mas não coloca a arbitragem em funcionamento sozinho. Enquanto a lei especial não vier, o inciso VII do art. 151, o XII do art. 156 e o VI do art. 174, § 1º, existem, mas esperam. Item que afirme que "a LC 236 instituiu a arbitragem tributária" confunde autorizar com instituir.

O art. 171-C resolve um problema que travava a transação na prática. O art. 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal exige, para a concessão de benefício que gere renúncia de receita, estimativa de impacto orçamentário e medida de compensação. Muitos entes hesitavam em transacionar com medo de estarem renunciando. O CTN agora afirma que transação, mediação e arbitragem não são renúncia de receita: são formas de recuperar um crédito litigioso, não de abrir mão dele. Isenção, anistia e remissão continuam sendo renúncia.

O que cada via faz com o crédito

Para cada via, o Código responde a três perguntas: o que acontece enquanto ela corre, o que acontece quando ela termina e o que ela faz com a prescrição. É um sistema de encaixe entre os arts. 151, 156 e 174, e é o ponto em que a prova mais insiste.

1
Proposta aceita
Suspende · art. 151, VIII
2
Transação cumprida
Extingue · art. 156, III
1
Mediação instaurada
Interrompe a prescrição · art. 174, § 1º, V
2
Acordo firmado
Suspende · art. 151, IX
3
Acordo cumprido
Extingue · art. 156, XIII
1
Requerimento
Marco da interrupção da prescrição · art. 174, § 1º, VI
2
Arbitragem instituída
Suspende · art. 151, VII
3
Sentença favorável, transitada
Extingue · art. 156, XII
ViaEnquanto correNo desfecho
TransaçãoA proposta aceita pela administração suspende a exigibilidade (art. 151, VIII).A transação cumprida extingue o crédito (art. 156, III).
MediaçãoA instauração interrompe a prescrição (art. 174, § 1º, V); o acordo suspende a exigibilidade até a eventual dissolução (art. 151, IX).O cumprimento do acordo extingue o crédito (art. 156, XIII).
ArbitragemA instituição suspende a exigibilidade (art. 151, VII) e interrompe a prescrição, retroagindo ao requerimento (art. 174, § 1º, VI).A sentença arbitral favorável ao sujeito passivo, transitada em julgado, extingue o crédito (art. 156, XII).
O § 3º tem duas saídas Com execução fiscal em curso, a arbitragem não suspende sozinha. O § 3º do art. 151 condiciona a suspensão a uma das duas hipóteses: a prévia suspensão do crédito por outra hipótese do caput, como o seguro garantia ou a fiança aceitos (inciso I), ou o oferecimento de garantia integral dentro da própria arbitragem (inciso II). São alternativas ligadas pelo "ou": exigir as duas cumulativamente é erro, e apresentar só a primeira é resposta incompleta.

Lei seca: suspensão, extinção e exclusão do crédito

Os três artigos que governam a vida do crédito tributário estão reproduzidos abaixo na íntegra, na redação vigente depois da LC 236/2026, com o comentário de cada inciso ao lado. É a parte da aula que você deve reler na véspera, porque prova de lei nova cobra literalidade.

Art. 151: as dez hipóteses de suspensão

IncisoO que suspendeOnde a prova pega
IMoratóriaDilação do prazo de pagamento por lei; não confundir com parcelamento (VI), que é modalidade específica com regime próprio no art. 155-A
IIDepósito do montante integralIntegral e em dinheiro (Súmula 112 do STJ). Depósito parcial não suspende. Ao final, vira renda e extingue (art. 156, VI)
IIIImpugnações, recursos e manifestação de inconformidadeRedação ampliada pela LC 236. Combine com o art. 208-C, I, que manda suspender de imediato, e com o § 2º, que veda caução
IVLiminar em mandado de segurançaBasta a liminar; não se exige depósito
VLiminar ou tutela provisória em outras açõesVocabulário atualizado para o CPC/2015. Some com o art. 161, § 3º: a liminar também interrompe a multa de mora
VIParcelamentoVeio da LC 104/2001. Parcelamento suspende; o cumprimento do parcelamento é que leva à extinção pelo pagamento
VIIInstituição da arbitragemNão é o requerimento: é a instituição. E, com execução fiscal em curso, depende do § 3º
VIIIProposta de transação aceitaProposta apresentada não suspende. Precisa da aceitação pela administração
IXAcordo de mediação, até a eventual dissoluçãoA suspensão dura enquanto o acordo durar; dissolvido o acordo, cessa
XSeguro garantia ou fiança aceitos pelo credorTrês travas no texto: aceitação pelo credor, conformidade com as normas de aceitação e ausência de sinistro
O § 3º tem duas saídas, não uma Este é o detalhe que quase todo resumo erra. Com execução fiscal já em curso, a arbitragem só suspende se ocorrer uma das duas hipóteses do § 3º: a prévia suspensão por outra hipótese do caput (inciso I) ou o oferecimento de garantia integral dentro da própria arbitragem (inciso II). São alternativas, ligadas pelo "ou". Um item que apresente só a primeira como se fosse a única condição está incompleto, e um item que exija as duas cumulativamente está errado.

Art. 156: as treze hipóteses de extinção

IncisoO que extingueOnde a prova pega
IPagamentoA forma natural. O art. 161, § 3º, agora interrompe a multa de mora enquanto houver liminar
IICompensaçãoDepende de lei do ente (art. 170) e não cabe por liminar (Súmula 212 do STJ)
IIITransaçãoExtingue a transação cumprida; a proposta aceita apenas suspende (art. 151, VIII)
IVRemissãoPerdão do crédito já constituído, por lei específica. Não confundir com anistia, que é exclusão e alcança a penalidade
VPrescrição e decadênciaNo CTN, a decadência extingue o crédito, embora atinja o direito de constituir. Redação criticada pela doutrina, mas é a da lei
VIConversão de depósito em rendaFecha o ciclo do inciso II do art. 151: primeiro suspende, no fim extingue
VIIPagamento antecipado e homologaçãoO que extingue é a homologação, expressa ou tácita, não o pagamento isolado
VIIIConsignação em pagamento julgada procedenteSó com a procedência do § 2º do art. 164; a mera propositura não extingue
IXDecisão administrativa irreformávelÉ a vitória definitiva do contribuinte no contencioso. Combine com o art. 208-C, § 2º, que agora proíbe o recurso hierárquico contra ela
XDecisão judicial transitada em julgadoVale a coisa julgada material
XIDação em pagamento em bens imóveisSó imóveis, e na forma da lei do ente. Item que fale em bens móveis está errado
XIISentença arbitral favorável ao sujeito passivo, transitadaTrês condições no texto: ser da arbitragem especial tributária, ser favorável ao sujeito passivo e ter transitado
XIIICumprimento do acordo de mediaçãoDe novo o par: o acordo firmado suspende (151, IX); o acordo cumprido extingue
O padrão que organiza os incisos novos. Repare que os três institutos consensuais entram nas duas listas, sempre no mesmo desenho: o começo suspende, o desfecho extingue. Arbitragem instituída suspende (151, VII) e sentença favorável transitada extingue (156, XII). Proposta de transação aceita suspende (151, VIII) e transação cumprida extingue (156, III). Acordo de mediação suspende (151, IX) e acordo cumprido extingue (156, XIII). Quem entende o padrão não precisa decorar seis incisos, decora um.

Art. 175: a exclusão do crédito

A LC 236 não alterou o art. 175, e isso, por si só, é informação de prova: a lista da exclusão continua com duas hipóteses, isenção e anistia, enquanto a suspensão foi a dez e a extinção a treze. Uma questão que ofereça "transação" ou "mediação" como hipótese de exclusão está errada por natureza: consensualidade extingue, não exclui.

CritérioIsençãoAnistia
AlcançaO tributoA penalidade (multa)
MomentoAntes do lançamento, sobre fato gerador futuroSobre infração já cometida, antes do lançamento da penalidade
Base legalArts. 176 a 179Arts. 180 a 182
Obrigação acessóriaContinua devida nas duas, por força do parágrafo único do art. 175
Os três institutos não se confundem Suspensão segura a exigibilidade, e o crédito continua existindo. Extinção acaba com o crédito. Exclusão impede que o crédito se constitua. E, nas três, as obrigações acessórias continuam devidas: o art. 151, § 1º, diz isso para a suspensão, e o parágrafo único do art. 175, para a exclusão. Quem tem isenção de ICMS continua emitindo nota.

Art. 174: a prescrição e os dois novos marcos de interrupção

Fechando o conjunto, a LC 236 acrescentou dois incisos ao parágrafo único do art. 174, que passou a ser § 1º. A lista de interrupção da prescrição ficou assim:

IncisoMarco interruptivoObservação
IDespacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscalRedação da LC 118/2005
IIProtesto judicialJá existia
IIIAto judicial que constitua em mora o devedorJá existia
IVAto inequívoco, ainda que extrajudicial, de reconhecimento do débitoJá existia; é o parcelamento pedido, a confissão de dívida
VInstauração da mediaçãoNovo. Interrompe já na instauração, antes de qualquer acordo
VIRequerimento de submissão à arbitragemNovo. A interrupção retroage ao requerimento, ainda que a instituição venha depois

Repare na assimetria proposital entre os incisos V e VI e o art. 151. Na suspensão da exigibilidade, o que conta na arbitragem é a instituição (art. 151, VII). Na interrupção da prescrição, o que conta é o requerimento (art. 174, § 1º, VI). São momentos diferentes para efeitos diferentes, e o legislador escolheu o mais cedo para proteger o contribuinte contra a demora na instalação do juízo arbitral.

O processo administrativo fiscal (arts. 208-A a 208-J)

O art. 208-A abre o capítulo dizendo a que veio: normas gerais para o processo administrativo fiscal de todos os entes, com o objetivo de assegurar devido processo legal, contraditório, ampla defesa e duplo grau de jurisdição.

Mais de 100 mil habitantes
Duplo grau obrigatório no contencioso administrativo fiscal (art. 208-A, § 1º). A régua é a população residente do último censo do IBGE (§ 2º).
Até 100 mil habitantes
Pode manter instância única. As demais garantias do capítulo, como prazos, requisitos do auto, nulidades e efeito vinculante, valem do mesmo jeito.
Censo, não estimativa A régua do duplo grau é o último censo demográfico do IBGE, não a estimativa populacional anual. Município abaixo de 100 mil habitantes pode ter instância única. E vale lembrar: a Constituição não garante duplo grau administrativo em geral, entendimento já firmado pelo STF; quem garante, para os entes maiores, é agora o CTN.

Auto de infração: sete requisitos (art. 208-B)

O CTN nunca tinha dito o que um auto de infração precisa conter. A legislação federal (Decreto 70.235/1972) e as estaduais tinham as próprias listas. Agora existe um mínimo nacional de sete requisitos, e o mais sofisticado deles é o inciso IV: não basta descrever o fato e citar o artigo, é preciso fazer a subsunção, ou seja, explicar por que aquele fato se encaixa naquele dispositivo.

Auto de infração: sete requisitosart. 208-B
Quem: a identificação do autuado (I)
O quê: a descrição clara dos fatos (II)
Com base em quê: o dispositivo legal infringido e a penalidade aplicada (III)
Por quê: a subsunção dos fatos ao dispositivo (IV)
Quanto e até quando: a exigência fiscal e a intimação para cumprir ou impugnar (V)
Onde e quando: o local, a data e a hora da lavratura (VI)
Por quem: assinatura, cargo ou função e matrícula do autuante (VII)
Faltou um requisito: o auto é nulo? Não automaticamente. O art. 208-H, § 1º, só declara nulos os atos de autoridade incompetente (I) e os lançamentos sem fundamentação legal (III). A omissão de outro requisito se resolve pelas regras gerais de nulidade: ela só prejudica o que dela depende (§ 3º) e não se pronuncia quando o mérito puder ser decidido em favor do contribuinte (§ 5º).

Instâncias e recursos (art. 208-C)

O art. 208-C desenha o rito. A impugnação tempestiva instaura o contencioso e suspende a exigibilidade de imediato, o que fecha com o art. 151, III, e com o § 2º do mesmo artigo, que veda a exigência de caução para impugnar. Da decisão de primeira instância cabem recurso voluntário, do contribuinte, e remessa necessária, o reexame obrigatório da decisão favorável ao contribuinte. Havendo instância superior, cabe recurso especial por divergência entre colegiados do mesmo tribunal administrativo.

1
Auto de infração Lavrado com os sete requisitos do art. 208-B, com intimação para cumprir ou impugnar, inclusive por Domicílio Tributário Eletrônico (art. 127-A).
2
Impugnação, 20 dias úteis Instaura o contencioso e suspende a exigibilidade de imediato (art. 208-C, I), sem caução (art. 151, § 2º). Alegações e provas devem vir nessa primeira oportunidade (art. 208-D, §§ 7º e 8º).
3
Primeira instância Decisão fundamentada (art. 208-F). Favorável à Fazenda, cabe recurso voluntário do contribuinte; favorável ao contribuinte, há remessa necessária.
4
Recurso voluntário e remessa, 20 dias úteis Contrarrazões no mesmo prazo (art. 208-D, § 2º) e pauta divulgada com 10 dias de antecedência (§ 1º).
5
Segunda instância Acórdão publicado para consulta (art. 208-F, parágrafo único). Os precedentes vinculantes do art. 208-G obrigam o colegiado.
6
Recurso especial, 20 dias úteis Só quando houver instância superior e apenas por divergência entre colegiados do mesmo tribunal administrativo (art. 208-C, IV).
7
Decisão definitiva Favorável ao contribuinte, extingue o crédito (art. 156, IX) e não cabe recurso hierárquico ao Secretário ou Ministro (art. 208-C, § 2º). Favorável à Fazenda, o crédito é inscrito em dívida ativa após o controle de legalidade (art. 201, § 2º).
1
Decisão publicada
Cabem embargos em 5 dias úteis · art. 208-D, IV
2
Embargos opostos
Interrompem o prazo dos demais recursos
3
Embargos julgados
O prazo dos demais recursos recomeça do zero
Acabou o recurso hierárquico contra o contribuinte Em vários Estados, quando o tribunal administrativo decidia a favor do contribuinte, a Fazenda ainda podia levar o caso ao Secretário, que reformava a decisão. O § 2º do art. 208-C proíbe esse recurso hierárquico contra decisão definitiva favorável ao sujeito passivo. Repare no alcance: a proibição vale para decisão favorável ao contribuinte. Decisão favorável à Fazenda continua podendo ser discutida por ele no Judiciário, como sempre foi.

Prazos, provas e preclusão

Aqui está o coração da padronização. Antes, o prazo de impugnação variava de 15 a 30 dias conforme o ente e era contado em dias corridos. Agora o mínimo nacional é de 20 dias para impugnação, recurso voluntário e recurso especial e 5 dias para embargos, tudo em dias úteis, com o prazo suspenso de 20 de dezembro a 20 de janeiro, à moda do CPC.

AtoPrazoContado de
Impugnação20 dias úteisCiência da lavratura do auto de infração
Recurso voluntário20 dias úteisCiência da decisão de 1ª instância desfavorável
Recurso especial20 dias úteisCiência da decisão de 2ª instância desfavorável
Embargos de declaração5 dias úteisCiência do despacho decisório, decisão ou acórdão
ContrarrazõesMesmo prazo do recursoIntimação para responder
Divulgação da pauta10 dias de antecedênciaAntes da sessão de julgamento
Contagem dos prazosart. 208-D, §§ 3º a 6º
Dias úteis: exclui o dia do início e inclui o do vencimento (§ 3º)
Expediente normal: o prazo só começa ou vence em dia de expediente no órgão (§ 4º)
Recesso: suspenso de 20 de dezembro a 20 de janeiro, inclusive (§ 5º)
Retirada de pauta: a parte pode pedir se o julgamento cair no recesso (§ 6º)

Do lado das provas, a lógica é de preclusão com válvulas. O contribuinte tem de dizer tudo na primeira manifestação (§ 7º) e juntar as provas documentais nesse momento (§ 8º). Depois disso, prova ou argumento novo só entra em três situações, listadas no § 9º:

Prova depois da impugnação, só seart. 208-D, § 9º
Força maior impediu a apresentação oportuna (I)
Fato ou direito superveniente (II)
Contraposição a fatos ou razões que a Fazenda trouxe depois (III)

Concomitância, fundamentação e publicidade (arts. 208-E e 208-F)

O art. 208-E leva ao CTN a regra do art. 38, parágrafo único, da Lei de Execução Fiscal: quem vai ao Judiciário com o mesmo objeto renuncia ao recurso administrativo e desiste do que já tiver interposto. E cria um dever: o contribuinte precisa informar se a matéria impugnada já foi levada ao juiz, juntando a petição, para que a administração avalie se os objetos coincidem. Já o art. 208-F exige decisões fundamentadas, com os pressupostos de fato e de direito, e manda as administrações publicarem seus acórdãos para consulta.

Mesmo objeto: há renúncia
O contribuinte impugna o auto de ICMS alegando decadência e, antes do julgamento, ajuíza ação anulatória do mesmo auto pelo mesmo fundamento. Pelo art. 208-E, parágrafo único, renunciou ao recurso administrativo: o processo administrativo é encerrado e a discussão segue só no Judiciário.
Objeto distinto: as vias convivem
O contribuinte impugna o auto de ICMS quanto à dosimetria da multa e ajuíza ação sobre a base de cálculo de outro período. Os objetos são diferentes e não há renúncia, mas ele continua obrigado a informar a ação no processo administrativo (art. 208-E, caput).

Efeito vinculante: o que obriga o julgador

Esta é a inovação de maior alcance prático da lei. O julgador administrativo passa a estar vinculado a três fontes, e o § 1º do art. 208-G tira a consequência mais dura: matéria já decidida a favor do contribuinte nesses moldes não gera auto de infração, não tem impugnação negada e não é inscrita em dívida ativa.

Fontes com efeito vinculante no PAFart. 208-G
STF e STJ com efeito vinculante judicial (I): súmula vinculante; repercussão geral e recurso repetitivo transitados em julgado; controle concentrado
Resolução do Senado (II): a que suspende a execução de lei declarada inconstitucional (CF, art. 52, X)
Súmula do tribunal administrativo (III): decisões reiteradas e uniformes do próprio ente, com banco de dados dos fundamentos (§ 2º)
Vincula
Súmula vinculante; repercussão geral e repetitivo com trânsito em julgado; ADI e ADC; resolução do Senado; súmula do tribunal administrativo do próprio ente.
Não vincula por este artigo
Acórdão de turma sem afetação; decisão monocrática; súmula simples do STF ou do STJ; solução de consulta, que vincula só o órgão emissor (art. 107, § 2º); parecer de outro ente.

O art. 194-A é a face administrativa da mesma regra: a administração tributária fica vinculada às decisões do STF e do STJ com efeito vinculante e tem até 90 dias úteis, contados do trânsito em julgado, para publicar parecer orientando a aplicação.

1
Trânsito em julgado
Decisão do STF ou do STJ com efeito vinculante
2
Administração vinculada
art. 194-A, caput
3
Até 90 dias úteis
Parecer público da Fazenda · art. 194-A, § 1º
4
Efeito prático
Sem auto e sem inscrição · art. 208-G, § 1º
O caso do auto que não podia existir O STF decide, em repercussão geral transitada em julgado, que certa verba não integra a base de cálculo de uma contribuição. Meses depois, um auditor lavra auto cobrando a contribuição sobre aquela verba e, após a decisão administrativa, o crédito é inscrito em dívida ativa. Os dois atos violam o CTN: pelo art. 208-G, § 1º, não se lavra auto nem se inscreve crédito fundado em matéria decidida a favor do sujeito passivo; e, pelo art. 194-A, a administração já estava vinculada desde o trânsito em julgado, independentemente de o parecer dos 90 dias ter saído.

Nulidades, rito diferenciado e sobrestamento

O art. 208-H traz a teoria das nulidades para dentro do Código. A administração deve anular seus próprios atos ilegais, que é a Súmula 473 do STF agora positivada. São nulos os atos de autoridade incompetente e os lançamentos sem fundamentação legal. A intimação irregular é nula, mas o comparecimento supre o vício. A nulidade só contamina o que dela depende. E, se o mérito puder ser decidido a favor do contribuinte, a nulidade não se pronuncia.

Nulidades no PAFart. 208-H
Nulo: ato ou termo de autoridade, órgão ou servidor incompetente (§ 1º, I)
Nulo: lançamento sem fundamentação legal (§ 1º, III)
Sanável: intimação irregular, se o intimado comparece (§ 2º)
Contida: a nulidade só atinge os atos que dela dependem (§ 3º), e a autoridade indica quais (§ 4º)
Não pronunciada: se o mérito puder ser decidido em favor do sujeito passivo (§ 5º)

O art. 208-I autoriza rito diferenciado em função do valor do crédito discutido, do indébito pleiteado ou do porte da pessoa jurídica. E o art. 208-J manda sobrestar automaticamente os processos administrativos quando o STF ou o STJ determinar a suspensão coletiva de processos judiciais sobre a mesma questão.

1
STF ou STJ suspende
Processos judiciais sobre a mesma questão
2
Sobrestamento automático
O processo administrativo para · art. 208-J
3
Questões independentes
Seguem em autos apartados · § 1º
4
Liminar
Continua possível · § 2º
Automático, mas com desmembramento. Quando o STF afeta um tema e suspende os processos judiciais, os processos administrativos sobre a mesma questão param sozinhos, sem depender de ato do presidente do tribunal administrativo. Se o mesmo auto discute outras matérias, a parte não afetada segue em autos apartados (§ 1º). E o contribuinte não fica preso: pode pedir liminar no Judiciário (§ 2º) e, obtendo-a, a exigibilidade fica suspensa pelo art. 151, IV ou V.

O que mudou fora do Capítulo IV

Se a aula parasse nos arts. 208-A a 208-J, metade da LC 236 ficaria de fora. Antes de chegar ao capítulo do processo, a lei espalhou mudanças por todo o Código, e várias delas são mais cobráveis do que o capítulo novo, porque mexem em artigos que você já estudava. Vamos artigo por artigo.

Art. 107: a consulta e os pareceres jurídicos

O art. 107 era um artigo de interpretação, curto. Ganhou três parágrafos que resolvem uma dúvida antiga: quem fica vinculado por uma solução de consulta?

A resposta agora está escrita. Do lado de dentro, a consulta e os pareceres jurídicos vinculam o órgão emissor: a Fazenda não pode responder uma coisa ao contribuinte e sustentar o contrário no julgamento. Do lado de fora, a solução de consulta aproveita ao consulente, isto é, a quem perguntou.

Por que isso importa no processo Guarde esse par, órgão emissor e consulente, porque ele volta no art. 208-G. Solução de consulta não é fonte de efeito vinculante no processo administrativo fiscal: ela não obriga o julgador em geral e muito menos a administração de outro ente. Uma alternativa que ofereça "solução de consulta de órgão de outro ente federativo" numa questão sobre o que vincula é a resposta que você procura.

Art. 113-A: razoabilidade, proporcionalidade e o teto

Artigo inteiramente novo, e note onde ele foi colocado: no art. 113, que trata da obrigação tributária. Não é acidente. O legislador quis dizer que a moderação sancionatória é característica da obrigação, não um favor concedido no fim do processo.

O caput impõe que as penalidades observem razoabilidade e proporcionalidade. O § 1º fixa os tetos: 75% como regra, 100% quando houver prática dolosa de fraude, sonegação ou conluio, e 150% na reincidência.

Dois detalhes que decidem questão. O teto alcança a multa vinculada ao tributo, aquela calculada como percentual do valor devido; as multas isoladas fixadas em valor fixo, típicas do descumprimento de obrigação acessória, ficam fora, porque não há base sobre a qual aplicar percentual. E 150% é teto, não é a multa da reincidência: a lei do ente pode fixar menos, nunca mais.

Art. 127-A: intimação por Domicílio Tributário Eletrônico

Outro artigo novo, e ele é a base tecnológica de todo o Capítulo IV. Sem intimação eletrônica válida não existe contagem de prazo confiável, e sem contagem confiável não adianta padronizar prazo nenhum.

O artigo autoriza a intimação por Domicílio Tributário Eletrônico, e o ponto mais fino é a extensão ao procurador: o representante constituído nos autos também é intimado por essa via. Amarre isso com o art. 208-D, I, que conta o prazo de impugnação "da ciência da lavratura do auto": é o DTE que define o instante dessa ciência.

Art. 138: a denúncia espontânea e a multa de mora

Aqui a lei encerrou uma discussão de vinte anos com quatro palavras. O art. 138 sempre disse que a denúncia espontânea, acompanhada do pagamento do tributo e dos juros, exclui a responsabilidade pela infração. A briga era: a multa de mora também é excluída? A Fazenda dizia que não, que a multa moratória seria mera indenização pelo atraso; o contribuinte dizia que sim.

O art. 138 agora diz que a denúncia espontânea exclui a responsabilidade "inclusive em relação à multa de mora". Fim da controvérsia.

O que NÃO mudou A Súmula 360 do STJ continua de pé: não há denúncia espontânea quanto a tributos declarados e pagos a destempo. A razão é que a declaração já constituiu o crédito (Súmula 436 do STJ), e não se confessa o que o Fisco já sabe. O que a LC 236 fez foi outra coisa: quando denúncia espontânea, ela agora afasta expressamente também a multa de mora. Uma questão que misture as duas coisas e diga que "o contribuinte que declarou e não pagou tem direito à exclusão da multa de mora por denúncia espontânea" está errada.

Art. 142: lançamento para prevenir decadência e dosimetria

O art. 142 é o artigo do lançamento, e recebeu dez parágrafos. Dois assuntos moram ali.

O primeiro é o lançamento para prevenir decadência. Quando o crédito está com a exigibilidade suspensa, a Fazenda pode, e deve, lançar para não perder o direito pelo decurso do prazo. A pergunta clássica é: se está suspenso, por que lançar? Porque suspensão de exigibilidade não é suspensão de decadência. O que a suspensão impede é a cobrança, não a constituição. Lança-se, e a exigibilidade continua suspensa.

O segundo é a dosimetria, dos §§ 5º a 10, que a gente detalha na seção das multas.

Art. 150, §§ 5º e 6º: a decadência do lançamento por homologação

O lançamento por homologação sempre foi o campo mais litigioso da decadência, porque o CTN tinha duas regras que pareciam brigar: a do art. 150, § 4º, que conta cinco anos do fato gerador, e a do art. 173, I, que conta cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.

A LC 236 acrescentou parágrafos com marcos expressos para o tributo lançado por homologação, reduzindo o espaço de disputa. A régua prática que a jurisprudência já aplicava e que o Código agora acomoda: houve pagamento antecipado, ainda que parcial, conta-se do fato gerador; não houve pagamento nenhum ou houve dolo, fraude ou simulação, desloca-se para o art. 173, I.

Art. 161, § 3º: liminar interrompe a multa de mora

Parágrafo curto e muito justo. Concedida liminar ou tutela provisória, interrompe-se a incidência da multa de mora enquanto durar a medida.

A lógica é elementar: multa de mora pune o atraso voluntário. Quem está protegido por decisão judicial que suspende a exigibilidade não está em atraso voluntário; está cumprindo uma ordem. Puni-lo por isso seria transformar o direito de ação em risco financeiro.

Não confunda os três. Multa de mora fica interrompida pela liminar (art. 161, § 3º). Juros continuam correndo, porque não são sanção, são remuneração do capital no tempo. E correção monetária, quando existir, também segue, porque não acrescenta valor, apenas recompõe. Item que diga que a liminar "suspende juros e multa" está errado pela metade, e meia verdade em prova é erro inteiro.

Art. 196: o começo da fiscalização, agora documentado

O art. 196 já exigia que a autoridade lavrasse termo de início de fiscalização. A LC 236 acrescentou três parágrafos que apertam o procedimento em favor do contribuinte.

Primeiro, o documento prévio que formaliza o início da fiscalização. Segundo, a entrega de via ao contribuinte: não basta lavrar, é preciso dar a ele o papel, porque é esse marco que define quando começa o procedimento e, por consequência, quando a denúncia espontânea deixa de ser possível. Terceiro, e mais sensível: o uso de força policial passa a exigir justo receio reduzido a termo, ou seja, o motivo escrito e assinado, sujeito a controle posterior.

Art. 199-A: convênio entre Fazendas

O art. 199 já permitia a permuta de informações entre as Fazendas. O art. 199-A vai além: autoriza convênio para compartilhar fiscalização, lançamento, cobrança e até a estrutura do processo administrativo.

Na prática, é o que viabiliza um município pequeno participar de estrutura de julgamento compartilhada, em vez de manter um tribunal administrativo próprio inviável. Amarre com o art. 208-A, § 1º: o município acima de cem mil habitantes precisa garantir duplo grau, e o art. 199-A é uma das formas de fazer isso sem criar máquina nova.

Art. 201, § 2º: controle de legalidade antes da inscrição

A inscrição em dívida ativa deixou de ser um ato automático de transcrição. O § 2º exige controle de legalidade antes de inscrever, o que na União a Procuradoria já fazia por lei própria e agora vale como norma geral.

E note como esse parágrafo fecha o sistema com o art. 208-G, § 1º: se a matéria já foi decidida a favor do contribuinte em precedente vinculante, o crédito não pode ser inscrito. O controle de legalidade é o momento processual em que essa verificação acontece.

Teto, dosimetria e conformidade

O bloco sancionatório forma um sistema. A multa tem um teto (art. 113-A), tem reduções conforme o momento e a forma do pagamento (art. 142, § 5º), tem agravantes (dolo e reincidência, § 9º) e atenuantes (§ 10, I), e quem adere a programa de conformidade sobe um degrau nas reduções (§ 10, II). Antes de tudo isso, a administração deve oferecer autorregularização (art. 194, § 2º), para que a multa nem chegue a ser aplicada.

1
Antes do auto
Autorregularização, sem multa · art. 194, § 2º
2
Auto lavrado
Multa até o teto · art. 113-A
3
No prazo de impugnação
Reduz 50% pagando, 40% parcelando
4
Antes da inscrição
Reduz 30% pagando, 20% parcelando
5
Inscrito em dívida ativa
Sem redução
Momento e forma de quitarRedução comumEm conformidade
Pagamento integral no prazo de impugnação50%60%
Parcelamento no prazo de impugnação40%50%
Pagamento integral antes da inscrição em dívida ativa30%40%
Parcelamento antes da inscrição em dívida ativa20%30%
Como ler os números. A coluna da esquerda é a redução comum do art. 142, § 5º; a da direita, a de quem participa de programa de conformidade (§ 10, II), sempre dez pontos acima. Duas travas: devedor contumaz não tem redução nenhuma (§ 6º) e a redução nunca alcança o tributo, só a multa (§ 7º). Quanto ao teto do art. 113-A, a regra é 75%, subindo a 100% no dolo (fraude, sonegação ou conluio) e a 150% na reincidência.
Programas de conformidade: sete princípiosart. 194, § 3º
Voluntariedade de ingresso e de saída
Boa-fé e confiança mútua
Diálogo e cooperação
Transparência, previsibilidade e segurança jurídica
Busca da conformidade tributária
Prevenção de litígios e de penalidades
Proporcionalidade e imparcialidade

O que muda no processo federal: LC 236 e o Decreto 70.235

Quem estuda para concurso federal aprendeu o processo administrativo fiscal pelo Decreto 70.235/1972. A pergunta natural é: ele foi revogado? Não. O Decreto continua regendo o processo federal. O que mudou é que agora existe um piso de lei complementar acima dele, e onde o Decreto oferecer menos do que o CTN, prevalece o CTN.

TemaDecreto 70.235/1972CTN após a LC 236
Prazo de impugnação30 dias, contados em dias corridosMínimo de 20 dias úteis; a União pode manter os 30, porque o CTN é piso
Prazo de recurso voluntário30 diasMínimo de 20 dias úteis
Prova depois da impugnaçãoArt. 16, § 4º: força maior, fato ou direito superveniente, contraposiçãoArt. 208-D, § 9º: as mesmas três, agora como norma nacional
NulidadesArt. 59: incompetência e preterição do direito de defesaArt. 208-H: incompetência e falta de fundamentação legal, mais o regime de contenção dos §§ 2º a 5º
Embargos de declaraçãoPrevistos no regimento interno do órgão julgadorAgora no Código, com prazo de 5 dias úteis e efeito interruptivo
Recurso especialPor divergência, à Câmara SuperiorMesma lógica: divergência entre colegiados do mesmo tribunal
Recesso de fim de anoNão previsto20/12 a 20/01, com retirada de pauta a pedido
ConcomitânciaConstruída pela jurisprudência e pela LEF, art. 38Texto expresso no art. 208-E
A diferença mais fina da tabela Compare as duas listas de nulidade. O Decreto 70.235 fala em incompetência e preterição do direito de defesa. O art. 208-H fala em incompetência e lançamento sem fundamentação legal. Não são a mesma coisa, e o CTN não repetiu a preterição de defesa como nulidade nominada. Isso não significa que cerceamento de defesa deixou de ser vício: significa que ele se resolve pelo regime geral, no qual a nulidade só prejudica o que dela depende e não se pronuncia quando o mérito puder favorecer o contribuinte.

Os dois anos de adaptação

Norma geral precisa ser absorvida pela legislação de cada ente. Os arts. 211-A e 211-B dão dois anos, contados da publicação da LC 236, ou seja, até setembro de 2028, para essa adaptação. A diferença entre os dois artigos está no sujeito e na consequência.

Art. 211-A
DF, Estados e Municípios, dois anos, para adotar no mínimo a dosimetria do art. 142, § 5º. A União já a tinha na Lei 9.430.
Art. 211-B
União, DF, Estados e Municípios, dois anos, para adotar no mínimo os arts. 208-A a 208-J. Sem adaptação, aplicação direta (parágrafo único).
"No mínimo" quer dizer piso Os dois artigos dizem que a legislação do ente deve adotar os critérios "no mínimo". O CTN fixa um piso de garantias: o ente pode dar prazo de 30 dias para impugnar, mas não de 15; pode ter três instâncias, mas não pode negar o duplo grau se tiver mais de 100 mil habitantes; pode conceder reduções maiores de multa, mas não menores. É piso, não teto, e a prova vai testar exatamente isso.

O que a LC 236 não fez

Saber o que a lei não fez evita marcar alternativa bonita e falsa. Cinco pontos:

  • Não revogou o Decreto 70.235/1972. O processo federal continua regido por ele, com o CTN como piso.
  • Não criou tribunal administrativo nacional nem unificou as instâncias dos entes. Cada ente mantém a própria estrutura, e o art. 199-A apenas permite compartilhá-la por convênio.
  • Não instituiu a arbitragem tributária. Autorizou, e a instituição depende de lei especial (art. 171-A). O mesmo vale para a mediação (art. 171-B).
  • Não alterou o art. 175. A exclusão do crédito continua com duas hipóteses, isenção e anistia.
  • Não mexeu na execução fiscal. A Lei 6.830/1980 segue como está; o que a LC 236 fez foi disciplinar o que acontece antes dela, na esfera administrativa, e condicionar a inscrição ao controle de legalidade.

Seis casos resolvidos

Lei nova só entra de verdade quando você a aplica a um fato. Os seis casos abaixo cobrem os pontos que mais geram dúvida.

Caso 1. A arbitragem que chegou tarde na execução

Cenário. Uma indústria discute auto de infração de IPI, perde na esfera administrativa, o crédito é inscrito e a execução fiscal é ajuizada. Só então, com a lei especial já em vigor, a empresa requer a arbitragem especial tributária e pede a suspensão da execução, sem oferecer garantia.

Análise. A instituição da arbitragem suspende a exigibilidade pelo art. 151, VII. Mas, com execução fiscal em curso, incide o § 3º, que condiciona a suspensão a uma de duas coisas: crédito já suspenso por outra hipótese do caput (inciso I) ou garantia integral oferecida dentro da arbitragem (inciso II). A empresa não tem nem uma nem outra.

Resultado. A execução prossegue enquanto a arbitragem tramita. A prescrição, porém, está interrompida desde o requerimento (art. 174, § 1º, VI).

Lição. Antes da execução, a arbitragem suspende por si. Depois de ajuizada, suspende só com garantia.

Caso 2. O auto que não podia ser lavrado

Cenário. O STF, em repercussão geral transitada em julgado, decide que certa verba não integra a base de cálculo de uma contribuição. Meses depois, um auditor lavra auto cobrando a contribuição sobre aquela verba. A Fazenda ainda não publicou o parecer do art. 194-A, § 1º. Após a decisão administrativa, o crédito é inscrito em dívida ativa.

Análise. Há dois atos ilegais, com fundamentos distintos. O auto viola o art. 208-G, § 1º, que proíbe lavrar auto sobre matéria decidida a favor do sujeito passivo em precedente vinculante. A inscrição viola o mesmo parágrafo e ainda o art. 201, § 2º, que exige controle de legalidade antes de inscrever.

E o parecer que não saiu? Não socorre a Fazenda. A vinculação nasce no trânsito em julgado (art. 194-A, caput); o parecer dos 90 dias úteis é instrumento de uniformização interna, não condição da vinculação.

Caso 3. A prova que chegou depois

Cenário. Contribuinte impugna auto de ICMS sustentando que a mercadoria saiu com destino a outro Estado. Na impugnação, junta as notas fiscais. Em manifestação posterior, a Fazenda traz relatório de pedágio sugerindo que o veículo não deixou o Estado. O contribuinte, então, pede a juntada de canhotos de entrega assinados no destino.

Análise. Em regra, a prova documental precede na impugnação (art. 208-D, § 8º). Mas o § 9º, III, autoriza a juntada posterior quando ela se destina a contrapor fatos ou razões trazidos pela Fazenda depois. É exatamente o caso: o contribuinte não tinha como refutar antes um relatório que ainda não existia nos autos.

Resultado. A prova entra. Se a autoridade a recusar, há vício de cerceamento de defesa a ser alegado no recurso.

Caso 4. O município de oitenta mil habitantes

Cenário. Município com 80 mil habitantes no último censo, mas com estimativa populacional de 105 mil, mantém instância administrativa única e prazo de 15 dias para impugnar o auto de ISS. Um contribuinte alega nulidade por ausência de duplo grau e por prazo inferior ao do CTN.

Análise. São duas alegações e elas têm sortes opostas. Quanto ao duplo grau, o município tem razão: a régua do art. 208-A, § 2º, é o último censo, e não a estimativa; com 80 mil habitantes, a instância única é lícita. Quanto ao prazo, o contribuinte tem razão: o mínimo de 20 dias úteis do art. 208-D, I, não depende de tamanho de município.

Lição. A dispensa do § 1º alcança apenas o duplo grau. Todo o resto do capítulo vale para o município pequeno.

Caso 5. A multa de 200% e a lei estadual antiga

Cenário. Lei estadual anterior à LC 236 prevê multa de 200% do imposto para o caso de nota fiscal inidônea. Em outubro de 2026, é lavrado auto com essa multa. O Estado ainda não adaptou a legislação e invoca os dois anos do art. 211-A.

Análise. O argumento do Estado não se sustenta. O art. 113-A não depende de legislação específica: ele fixa diretamente o teto de 75%, 100% no dolo e 150% na reincidência, e está em vigor desde 4 de setembro de 2026. Os dois anos do art. 211-A são para adaptar a dosimetria do art. 142, § 5º, e não funcionam como autorização para continuar aplicando multa acima do teto.

Resultado. A multa deve ser reduzida ao teto aplicável. E, se o caso for de reincidência comprovada, o limite é 150%; se for de dolo, 100%; sem nenhum dos dois, 75%.

Caso 6. A ação judicial ajuizada no meio do recurso

Cenário. Contribuinte impugna auto de ISS discutindo duas matérias: a base de cálculo e a multa. Perde em primeira instância e interpõe recurso voluntário. Antes do julgamento, ajuíza ação anulatória discutindo apenas a base de cálculo.

Análise. O art. 208-E, parágrafo único, produz renúncia ao recurso administrativo quanto ao mesmo objeto. O objeto da ação é a base de cálculo; logo, quanto a ela, o recurso está prejudicado. A discussão sobre a multa não foi levada ao Judiciário e segue no processo administrativo.

E o dever de informar? Permanece integralmente. O caput obriga o contribuinte a informar a ação e juntar a petição, justamente para que a autoridade avalie a identidade dos objetos e faça esse recorte.

As trocas de palavra que invertem o gabarito

Lei nova entra em prova pela literalidade. As trocas abaixo são as que o texto da LC 236 mais convida.

  • Vigência. A lei está em vigor desde 4 de setembro de 2026. O prazo de dois anos dos arts. 211-A e 211-B é para os entes adaptarem as leis deles, não é vacatio legis.
  • Autorizou, não instituiu. A arbitragem depende de lei especial (art. 171-A) e a mediação, de lei que fixe critérios (art. 171-B). O CTN apenas desenha.
  • Mediador não decide. O terceiro da mediação é "sem poder decisório". Quem sentencia, com efeitos de decisão judicial, é o árbitro.
  • Suspende e depois extingue. Proposta de transação aceita, acordo de mediação e instituição da arbitragem suspendem (art. 151, VII a IX); transação cumprida, acordo cumprido e sentença arbitral favorável transitada extinguem (art. 156, III, XII e XIII).
  • Dias úteis. Os 20 dias e os 5 dias do art. 208-D são em dias úteis, com suspensão de 20 de dezembro a 20 de janeiro. Item que diga "dias corridos" está errado.
  • Embargos interrompem. Os embargos de declaração interrompem o prazo dos demais recursos, que recomeça do zero. Não suspendem.
  • Duplo grau por censo. Mais de 100 mil habitantes residentes pelo último censo do IBGE, não pela estimativa anual.
  • Recurso hierárquico. A vedação do art. 208-C, § 2º, protege a decisão definitiva favorável ao contribuinte.
  • Solução de consulta não vincula o PAF. Ela vincula apenas o órgão emissor (art. 107, § 2º) e não entra na lista do art. 208-G.
  • Redução só na multa. As reduções do art. 142, § 5º, nunca alcançam o tributo (§ 7º), e o devedor contumaz não tem redução alguma (§ 6º).

Questões de fixação

Vinte e cinco questões inéditas, cinco para cada bloco de assunto, escritas a partir do texto da lei. Responda antes de abrir o gabarito.

Bloco 1. A lei, o mapa e a vigência

Questão 1.1 · Vigência

Julgue o item. Os arts. 208-A a 208-J do CTN somente produzirão efeitos após o decurso do prazo de dois anos previsto no art. 211-B, período durante o qual os entes federativos deverão atualizar sua legislação.

Ver gabarito e comentário

Errado. A LC 236 entrou em vigor na data da publicação, 4 de setembro de 2026, por força do seu art. 3º. O prazo de dois anos do art. 211-B é para os entes adaptarem a legislação própria, e o parágrafo único cuida justamente da inércia: passado o prazo sem lei específica, os arts. 208-A a 208-J aplicam-se diretamente. O prazo não adia a eficácia da lei complementar.

Questão 1.2 · Fundamento constitucional

O fundamento constitucional que autoriza a lei complementar a estabelecer normas gerais sobre o processo administrativo fiscal dos Estados e Municípios é o

  • a) art. 24, § 3º, da CF, que trata da competência legislativa plena dos Estados na ausência de lei federal.
  • b) art. 146, III, da CF, que reserva à lei complementar as normas gerais em matéria de legislação tributária.
  • c) art. 150, II, da CF, que veda o tratamento desigual entre contribuintes.
  • d) art. 22, I, da CF, que atribui à União a competência privativa para legislar sobre direito processual.
  • e) art. 5º, LV, da CF, que assegura contraditório e ampla defesa no processo administrativo.
Ver gabarito e comentário

Gabarito: B. É o art. 146, III: cabe à lei complementar estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, e o processo de exigência do crédito é matéria tributária. A letra D é a alternativa mais tentadora, porque fala em direito processual, mas o processo administrativo fiscal não é direito processual civil ou penal; se fosse competência privativa da União pela via do art. 22, I, os Estados não poderiam legislar nem supletivamente. A letra E indica uma garantia que o capítulo concretiza, mas não é a norma de competência.

Questão 1.3 · Alcance das alterações

Julgue o item. A LC 236/2026 limitou-se a inserir no CTN o Capítulo IV do Título IV, relativo ao processo administrativo fiscal, sem alterar dispositivos referentes à suspensão, à extinção do crédito tributário ou à administração tributária.

Ver gabarito e comentário

Errado. A lei mudou 24 pontos do Código, muito além do capítulo novo. No campo do crédito, ampliou o art. 151 de seis para dez hipóteses de suspensão, acrescentou os incisos XII e XIII ao art. 156 e dois marcos de interrupção ao art. 174, § 1º. Na administração tributária, alterou os arts. 194, 196, 199-A e 201 e criou o art. 194-A. Fora disso, mexeu ainda nos arts. 107, 113-A, 127-A, 138, 142, 150 e 161.

Questão 1.4 · Consulta e pareceres

Nos termos do art. 107 do CTN, com a redação da LC 236/2026, a solução de consulta

  • a) vincula todos os órgãos da administração tributária de todos os entes federativos.
  • b) vincula o órgão emissor e aproveita ao consulente.
  • c) tem efeito vinculante no processo administrativo fiscal, nos termos do art. 208-G.
  • d) vincula o Poder Judiciário quanto à interpretação da legislação tributária do ente.
  • e) produz efeitos apenas prospectivos, sem alcançar fatos geradores anteriores à sua edição.
Ver gabarito e comentário

Gabarito: B. São exatamente os dois limites que a lei fixou: para dentro, a consulta vincula o órgão emissor; para fora, aproveita ao consulente. A letra A extrapola nos dois eixos, alcançando outros órgãos e outros entes. A letra C é a pegadinha central do tema: a solução de consulta não integra a lista do art. 208-G, que arrola precedentes do STF e do STJ, resolução do Senado e súmula do tribunal administrativo. A letra D confunde administração com jurisdição.

Questão 1.5 · Prazo de adaptação

Sobre os arts. 211-A e 211-B do CTN, assinale a alternativa correta.

  • a) O art. 211-A alcança União, Estados, Distrito Federal e Municípios, e o art. 211-B, apenas os Municípios.
  • b) Ambos concedem prazo de cinco anos para a adaptação da legislação dos entes.
  • c) O art. 211-A dirige-se ao Distrito Federal, aos Estados e aos Municípios, e trata da dosimetria da penalidade do art. 142, § 5º.
  • d) Decorrido o prazo sem adaptação, os arts. 208-A a 208-J deixam de ser aplicáveis ao ente omisso.
  • e) A adaptação deve reproduzir literalmente os critérios do Código, vedada a concessão de garantias mais amplas.
Ver gabarito e comentário

Gabarito: C. O art. 211-A fala em DF, Estados e Municípios, e manda adotar, no mínimo, a dosimetria do art. 142, § 5º. A União não aparece nele porque já tinha essa dosimetria na Lei 9.430. A letra A inverte os sujeitos: quem alcança os quatro entes é o art. 211-B. A letra B erra o prazo, que é de dois anos. A letra D inverte a consequência da inércia: o parágrafo único do art. 211-B determina justamente a aplicação direta dos arts. 208-A a 208-J. E a letra E ignora a expressão "no mínimo": o Código é piso, e o ente pode conceder mais garantias.

Bloco 2. Consensualidade e o encaixe com o crédito

Questão 2.1 · Suspensão da exigibilidade

De acordo com o Código Tributário Nacional, na redação dada pela Lei Complementar 236/2026, suspende a exigibilidade do crédito tributário

  • a) a transação celebrada e integralmente cumprida pelo sujeito passivo.
  • b) a proposta de transação aceita pela administração, nos termos da legislação específica.
  • c) a sentença arbitral favorável ao sujeito passivo, transitada em julgado.
  • d) o cumprimento do acordo decorrente de mediação.
  • e) a apólice de seguro garantia oferecida em execução fiscal, ainda que recusada pelo credor.
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Gabarito: B. O art. 151, VIII, arrola entre as hipóteses de suspensão a proposta de transação aceita pela administração. As letras A, C e D descrevem hipóteses de extinção (art. 156, III, XII e XIII): o que suspende é o começo da via, o que extingue é o desfecho dela. A letra E erra na palavra decisiva: o inciso X exige a aceitação pelo credor, e ainda condiciona a suspensão à conformidade com as normas de aceitação e à ausência de sinistro.

Questão 2.2 · Arbitragem e mediação

Julgue o item. A mediação de controvérsias tributárias será exercida por terceiro com poder decisório, escolhido ou aceito pelas partes, cuja decisão produzirá os mesmos efeitos da sentença judicial.

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Errado. O item mistura os dois institutos. O mediador é terceiro sem poder decisório, que auxilia e estimula as partes a construir a solução (art. 171-B). Quem decide, com sentença vinculante e efeitos de decisão judicial, é o árbitro da arbitragem especial tributária e aduaneira (art. 171-A, parágrafo único). Vale acrescentar que nenhum dos dois institutos está em funcionamento enquanto não sobrevier a lei que os institua.

Questão 2.3 · Extinção do crédito

Nos termos do art. 156 do CTN, com a redação dada pela LC 236/2026, extingue o crédito tributário

  • a) a dação em pagamento em bens móveis, na forma e condições estabelecidas em lei.
  • b) a instituição da arbitragem especial tributária e aduaneira.
  • c) o cumprimento do acordo de mediação.
  • d) a propositura de ação de consignação em pagamento.
  • e) a anistia concedida por lei específica.
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Gabarito: C. É o inciso XIII, acrescentado pela LC 236. A letra A troca imóveis por móveis: o inciso XI só admite bens imóveis. A letra B confunde as listas: a instituição da arbitragem suspende (art. 151, VII); o que extingue é a sentença arbitral favorável transitada (art. 156, XII). A letra D erra o momento: extingue a consignação julgada procedente (art. 164, § 2º), não a simples propositura. E a letra E troca de instituto: anistia é hipótese de exclusão (art. 175, II).

Questão 2.4 · Exclusão do crédito

Julgue o item. Após a LC 236/2026, o Código Tributário Nacional passou a prever quatro hipóteses de exclusão do crédito tributário: a isenção, a anistia, a transação e a mediação.

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Errado. A LC 236 não alterou o art. 175, que continua com duas hipóteses de exclusão: isenção e anistia. Transação e mediação produzem extinção, e nos momentos próprios: a transação cumprida (art. 156, III) e o cumprimento do acordo de mediação (art. 156, XIII). O item aproveita o fato de a lei ter ampliado as listas de suspensão e de extinção para sugerir que teria ampliado também a da exclusão.

Questão 2.5 · Arbitragem com execução em curso

Estando em curso a execução fiscal, a suspensão da exigibilidade do crédito pela instituição da arbitragem especial tributária e aduaneira está condicionada, nos termos do art. 151, § 3º, do CTN,

  • a) exclusivamente à prévia suspensão da exigibilidade por outra hipótese do art. 151.
  • b) exclusivamente ao oferecimento de garantia integral na arbitragem.
  • c) à prévia suspensão por outra hipótese do art. 151 ou ao oferecimento de garantia integral na arbitragem.
  • d) cumulativamente à prévia suspensão por outra hipótese e ao oferecimento de garantia integral.
  • e) à concordância expressa da Fazenda Pública credora, manifestada nos autos da execução.
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Gabarito: C. O § 3º traz duas saídas, ligadas pelo conectivo "ou": o inciso I exige a prévia suspensão por outra hipótese do caput e o inciso II admite, como alternativa, o oferecimento de garantia integral dentro da arbitragem. As letras A e B empobrecem o dispositivo ao apresentar uma das saídas como única; a letra D transforma alternativas em requisitos cumulativos; e a letra E inventa uma concordância da Fazenda que o texto não exige.

Bloco 3. O processo administrativo fiscal (arts. 208-A a 208-F)

Questão 3.1 · Prazos

Julgue o item. No processo administrativo fiscal, o prazo para apresentação de impugnação é de 20 dias corridos, contados da ciência da lavratura do auto de infração, e fica suspenso entre 20 de dezembro e 20 de janeiro.

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Errado. O prazo é mesmo de 20 dias (art. 208-D, I) e a suspensão de 20 de dezembro a 20 de janeiro existe (§ 5º), mas a contagem é em dias úteis, excluído o dia do início e incluído o do vencimento (§ 3º). O prazo ainda só começa ou vence em dia de expediente normal no órgão (§ 4º). Trocar "úteis" por "corridos" no meio de um item verdadeiro é a forma mais barata de inverter o gabarito nesta lei.

Questão 3.2 · Recursos e instâncias

Sobre o processo administrativo fiscal, nos termos dos arts. 208-A a 208-J do CTN, assinale a alternativa correta.

  • a) Os embargos de declaração suspendem o prazo para a interposição dos demais recursos.
  • b) Cabe recurso hierárquico ao Secretário de Estado contra decisão definitiva favorável ao sujeito passivo, quando a Fazenda demonstrar relevante interesse público.
  • c) A propositura de ação judicial pelo sujeito passivo com o mesmo objeto do processo administrativo importa renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso interposto.
  • d) O duplo grau de jurisdição é obrigatório para todos os entes federativos, sem distinção.
  • e) A apresentação de impugnação suspende a exigibilidade do crédito desde que o contribuinte ofereça caução idônea.
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Gabarito: C. É a literalidade do art. 208-E, parágrafo único. A letra A erra o verbo: os embargos interrompem, e o prazo recomeça do zero. A letra B contraria o art. 208-C, § 2º, que proibiu exatamente esse recurso hierárquico. A letra D ignora o corte dos 100 mil habitantes do art. 208-A, § 1º. E a letra E contraria o art. 151, § 2º, que veda a exigência de caução para impugnar.

Questão 3.3 · Requisitos do auto de infração

Não constitui requisito obrigatório do auto de infração, nos termos do art. 208-B do CTN,

  • a) a subsunção dos fatos descritos ao dispositivo legal infringido.
  • b) o local, a data e a hora da lavratura.
  • c) a assinatura do autuante, com indicação do cargo ou função e do número de matrícula.
  • d) a indicação do valor da garantia a ser oferecida para a apresentação de impugnação.
  • e) a determinação da exigência fiscal e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo legal.
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Gabarito: D. Não existe garantia para impugnar: o art. 151, § 2º, veda a exigência de caução ou depósito para a apresentação de impugnações e recursos, de modo que o auto não poderia indicar valor algum a esse título. As demais alternativas reproduzem os incisos IV, VI, VII e V do art. 208-B. Repare que a alternativa errada não é uma invenção qualquer: ela descreve uma prática que existia em legislações locais e que a LC 236 eliminou.

Questão 3.4 · Provas e preclusão

Nos termos do art. 208-D, § 9º, do CTN, a apresentação de novas provas ou de razões de direito após a impugnação é admitida, entre outras hipóteses, quando

  • a) o contribuinte demonstrar que a prova é relevante para o deslinde da causa.
  • b) houver mudança de patrono constituído nos autos.
  • c) a prova se destinar a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidos aos autos pela Fazenda.
  • d) o valor do crédito discutido superar o limite fixado na legislação específica.
  • e) a autoridade julgadora, por conveniência e oportunidade, entender pertinente o deferimento.
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Gabarito: C. É o inciso III do § 9º, e a lógica é de lealdade processual: não se pode exigir que o contribuinte tenha refutado antecipadamente um argumento que a Fazenda ainda não havia apresentado. As outras duas válvulas do parágrafo são a força maior que impediu a apresentação oportuna (I) e o fato ou direito superveniente (II). A letra A confunde relevância com admissibilidade: prova relevante apresentada fora do momento continua preclusa. E a letra E transforma em discricionariedade o que a lei tratou como hipótese vinculada.

Questão 3.5 · Duplo grau

Município cuja população residente, segundo o último censo demográfico do IBGE, é de 84 mil habitantes, mas cuja estimativa populacional mais recente aponta 112 mil, mantém instância administrativa única e prazo de 15 dias corridos para impugnação. À luz do CTN, é correto afirmar que

  • a) as duas práticas são legítimas, porque o Município tem menos de cem mil habitantes no censo.
  • b) as duas práticas são ilegítimas, porque a estimativa populacional supera cem mil habitantes.
  • c) a instância única é legítima, mas o prazo de impugnação viola o mínimo do art. 208-D, I.
  • d) o prazo é legítimo, porque a legislação local pode dispor livremente sobre prazos, mas falta o duplo grau.
  • e) ambas dependem de convênio celebrado nos termos do art. 199-A para produzirem efeitos.
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Gabarito: C. São dois comandos independentes. O duplo grau só é obrigatório acima de cem mil habitantes residentes, e a régua do art. 208-A, § 2º, é o último censo, não a estimativa: com 84 mil, a instância única é lícita. Já o prazo não depende do tamanho do Município: o mínimo de 20 dias úteis do art. 208-D, I, vale para todos, e 15 dias corridos ficam abaixo do piso por duas razões somadas, o número menor e a contagem corrida.

Bloco 4. Efeito vinculante, nulidades e sobrestamento

Questão 4.1 · Efeito vinculante

Segundo o art. 208-G do CTN, no âmbito do processo administrativo fiscal, não tem efeito vinculante

  • a) a súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal.
  • b) a decisão transitada em julgado do Superior Tribunal de Justiça em recurso repetitivo.
  • c) a resolução do Senado Federal que suspende a execução de lei declarada inconstitucional.
  • d) a solução de consulta proferida por órgão da administração tributária de outro ente federativo.
  • e) a súmula do tribunal administrativo do próprio ente, consolidando decisões reiteradas e uniformes.
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Gabarito: D. A solução de consulta vincula apenas o órgão que a emitiu e aproveita somente ao consulente (art. 107); ela não está na lista do art. 208-G, e menos ainda a de outro ente. As demais alternativas reproduzem os incisos I, II e III do artigo.

Questão 4.2 · Nulidades

Sobre o regime de nulidades do art. 208-H do CTN, assinale a alternativa correta.

  • a) A intimação feita sem observância das prescrições legais é nula, e o comparecimento do intimado não supre o vício.
  • b) Declarada a nulidade de um ato, todos os atos posteriores do processo são igualmente anulados.
  • c) A nulidade não será pronunciada quando o mérito puder ser decidido a favor do sujeito passivo.
  • d) A administração poderá, se entender conveniente e oportuno, anular os próprios atos eivados de vício de legalidade.
  • e) São nulos os lançamentos realizados por autoridade competente que deixem de indicar a hora da lavratura.
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Gabarito: C. É o § 5º: não há nulidade sem prejuízo, aqui em favor do contribuinte. A letra A contraria o § 2º, pelo qual o comparecimento supre a irregularidade. A letra B contraria o § 3º: a nulidade só prejudica os atos que dela diretamente dependam. A letra D erra o verbo e o regime: o caput diz que a administração deverá anular, e ilegalidade não se submete a juízo de conveniência. A letra E cria nulidade não prevista: faltar a hora descumpre o art. 208-B, VI, mas o § 1º do art. 208-H só nomina como nulos os atos de autoridade incompetente e os lançamentos sem fundamentação legal.

Questão 4.3 · Consequências do precedente vinculante

Decisão do STF em repercussão geral, transitada em julgado, reconhece que determinada verba não integra a base de cálculo de contribuição. A Fazenda ainda não publicou o parecer previsto no art. 194-A, § 1º, do CTN. Nesse cenário, é correto afirmar que

  • a) a administração só ficará vinculada após a publicação do parecer, dentro do prazo de 90 dias úteis.
  • b) a administração já está vinculada desde o trânsito em julgado, e não pode lavrar auto de infração sobre a matéria.
  • c) a vinculação depende de prévia edição de súmula pelo tribunal administrativo do ente.
  • d) o auto de infração pode ser lavrado, cabendo ao contribuinte alegar o precedente em impugnação.
  • e) a vinculação alcança apenas a União, por se tratar de decisão em matéria de contribuição federal.
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Gabarito: B. A vinculação nasce com o trânsito em julgado (art. 194-A, caput); o parecer do § 1º é instrumento de uniformização interna, com prazo de 90 dias úteis, e não condição da vinculação. Some a isso o art. 208-G, § 1º: matéria decidida a favor do sujeito passivo não gera auto de infração, não tem impugnação indeferida e não é inscrita em dívida ativa. Por isso a letra D está errada: o vício não é o de um auto que depois será cancelado, é o de um auto que não deveria existir.

Questão 4.4 · Sobrestamento

Julgue o item. Determinada a suspensão coletiva de processos judiciais pelo STF para a resolução de questão jurídica mediante precedente qualificado, os processos administrativos fiscais que versem sobre a mesma questão serão sobrestados mediante ato fundamentado do presidente do tribunal administrativo, vedada, durante o sobrestamento, a concessão de tutela provisória na esfera judicial.

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Errado, por dois motivos independentes. Primeiro, o sobrestamento é automático (art. 208-J): não depende de ato do presidente do tribunal administrativo nem de requerimento. Segundo, o § 2º é expresso ao dizer que o sobrestamento não obsta a concessão de medida liminar ou tutela provisória, presentes os requisitos processuais; obtida a medida, a exigibilidade fica suspensa pelo art. 151, IV ou V. O item ainda omite o § 1º, que permite o desmembramento das questões independentes em autos apartados.

Questão 4.5 · Rito diferenciado

Nos termos do art. 208-I do CTN, o trâmite e o julgamento do processo administrativo fiscal poderão ser diferenciados em razão

  • a) do valor do crédito discutido, do indébito pleiteado ou do porte da pessoa jurídica.
  • b) da natureza do tributo discutido e do regime de tributação do contribuinte.
  • c) do grau de complexidade da matéria e da existência de prova pericial.
  • d) exclusivamente do valor do crédito tributário em discussão.
  • e) da reincidência do sujeito passivo em infrações da mesma natureza.
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Gabarito: A. São exatamente os três critérios do art. 208-I: valor do crédito discutido, indébito pleiteado pelo sujeito passivo e porte da pessoa jurídica, sempre nos termos da legislação específica. As demais alternativas oferecem critérios plausíveis, e é justamente por serem plausíveis que funcionam como distratores: natureza do tributo, complexidade e reincidência não constam do dispositivo. A letra D erra por exclusão, reduzindo três critérios a um.

Bloco 5. Teto, dosimetria, conformidade e transição

Questão 5.1 · Dosimetria

Empresa participante de programa de conformidade é autuada e, dentro do prazo de impugnação, opta pelo parcelamento integral do débito. Nos termos do art. 142 do CTN, a redução da penalidade aplicável será de

  • a) 30%.
  • b) 40%.
  • c) 50%.
  • d) 60%.
  • e) nenhuma, porque o parcelamento afasta as reduções.
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Gabarito: C. Parcelamento no prazo de impugnação dá 40% na regra comum (art. 142, § 5º); como a empresa participa de programa de conformidade, sobe dez pontos (§ 10, II), chegando a 50%. A letra D seria a resposta se houvesse pagamento integral no prazo (50% comum, 60% em conformidade): a armadilha é trocar pagamento por parcelamento. E a letra E inverte a lei, porque o parcelamento reduz menos, mas reduz.

Questão 5.2 · Teto das multas

Julgue o item. O art. 113-A do CTN fixa que a multa vinculada ao valor do tributo não excederá 75%, elevando-se a 100% na hipótese de reincidência e a 150% quando verificada a prática dolosa de fraude, sonegação ou conluio.

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Errado. Os percentuais estão certos, mas as hipóteses foram trocadas. O teto é de 75% como regra, 100% no dolo (fraude, sonegação ou conluio) e 150% na reincidência. É a inversão mais econômica que a banca tem neste artigo: mantém três números verdadeiros e troca a ordem de duas circunstâncias. Vale lembrar ainda que os percentuais são tetos, e que multas isoladas em valor fixo ficam fora dessa limitação percentual.

Questão 5.3 · Devedor contumaz e alcance da redução

Sobre as reduções de penalidade do art. 142 do CTN, assinale a alternativa correta.

  • a) A redução alcança o valor do tributo e da penalidade, proporcionalmente.
  • b) O devedor contumaz faz jus às reduções em percentual reduzido pela metade.
  • c) As reduções não se aplicam ao devedor contumaz e não alcançam o tributo.
  • d) Após a inscrição em dívida ativa, subsiste redução de 10% para pagamento integral.
  • e) A participação em programa de conformidade eleva as reduções em vinte pontos percentuais.
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Gabarito: C. São as duas travas do artigo: o § 6º exclui o devedor contumaz de qualquer redução, e o § 7º limita a redução à penalidade, sem alcançar o tributo. A letra D inventa um degrau que não existe: depois da inscrição em dívida ativa não há mais redução. E a letra E dobra o incentivo do § 10, II, que é de dez pontos percentuais, não vinte.

Questão 5.4 · Programas de conformidade

Não figura entre os princípios dos programas de conformidade tributária previstos no art. 194, § 3º, do CTN,

  • a) a voluntariedade de ingresso e de saída.
  • b) a boa-fé e a confiança mútua.
  • c) a permanência mínima obrigatória do contribuinte pelo prazo fixado em regulamento.
  • d) a transparência, a previsibilidade e a segurança jurídica.
  • e) a prevenção de litígios e de penalidades.
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Gabarito: C. A permanência mínima obrigatória contraria frontalmente o primeiro princípio da lista, que é a voluntariedade de ingresso e de saída. Os sete princípios são: voluntariedade de ingresso e de saída; boa-fé e confiança mútua; diálogo e cooperação; transparência, previsibilidade e segurança jurídica; busca da conformidade tributária; prevenção de litígios e de penalidades; proporcionalidade e imparcialidade.

Questão 5.5 · Autorregularização e denúncia espontânea

Julgue o item. Com a nova redação do art. 138 do CTN, o contribuinte que declarou tributo sujeito a lançamento por homologação e não o pagou no vencimento poderá, ao quitá-lo espontaneamente com juros, afastar a multa de mora por denúncia espontânea.

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Errado. O item mistura duas coisas. É verdade que o art. 138 passou a excluir a responsabilidade "inclusive em relação à multa de mora", encerrando antiga controvérsia. Mas isso só vale quando há denúncia espontânea, e não há denúncia espontânea de tributo declarado e pago a destempo: a declaração já constituiu o crédito (Súmula 436 do STJ) e o Fisco já sabe do débito (Súmula 360 do STJ). A novidade alcança o efeito da denúncia espontânea, não os requisitos para que ela exista. Não confunda também com a autorregularização do art. 194, § 2º, que é oportunidade oferecida pela administração antes da lavratura do auto.

Glossário do capítulo

Subsunção
O encaixe entre o fato concreto e a hipótese da norma. É o inciso IV do art. 208-B: não basta narrar o fato e citar o artigo, é preciso demonstrar por que um se enquadra no outro.
Remessa necessária
Reexame obrigatório da decisão favorável ao contribuinte. Não é recurso: sobe por força de lei, independentemente de vontade da Fazenda.
Preclusão
Perda da faculdade processual não exercida no momento próprio. No art. 208-D, §§ 7º e 8º, alcança alegações e provas, com as três válvulas do § 9º.
Precedente qualificado
Decisão proferida em regime de repercussão geral, recurso repetitivo, controle concentrado ou súmula vinculante. É o gatilho do art. 208-G e do sobrestamento do art. 208-J.
Devedor contumaz
Quem descumpre de forma reiterada e estruturada a obrigação tributária, conforme a lei do ente. Perde toda redução de multa (art. 142, § 6º).
Manifestação de inconformidade
Defesa apresentada contra o indeferimento de compensação ou restituição. Passou a constar expressamente do art. 151, III, como causa de suspensão.
Autorregularização
Oportunidade dada ao contribuinte para corrigir a irregularidade antes da lavratura do auto, sem multa (art. 194, § 2º).
Sobrestamento automático
Suspensão do trâmite do processo administrativo por força do art. 208-J, sem necessidade de ato do tribunal administrativo, quando o STF ou o STJ suspende os processos judiciais sobre a mesma questão.

Resumo de véspera

A LC 236/2026 e o Capítulo IV do CTN, em síntese:

  • LC 236, de 4 de setembro de 2026, em vigor na publicação; três eixos: solução de controvérsias, consensualidade e processo administrativo fiscal.
  • Arts. 171-A a 171-C: arbitragem especial por lei especial, com sentença vinculante e efeitos de decisão judicial; mediação por terceiro sem poder decisório; nenhuma das três é renúncia de receita para a LRF.
  • Encaixe com o crédito: instituição da arbitragem, proposta de transação aceita e acordo de mediação suspendem (art. 151, VII a IX); transação cumprida, sentença arbitral favorável transitada e acordo de mediação cumprido extinguem (art. 156, III, XII e XIII); mediação e arbitragem interrompem a prescrição (art. 174, § 1º, V e VI).
  • Art. 208-A: normas gerais para todos os entes; duplo grau obrigatório acima de 100 mil habitantes pelo último censo.
  • Art. 208-B: sete requisitos do auto de infração, incluindo a subsunção dos fatos ao dispositivo.
  • Art. 208-C: impugnação suspende de imediato; recurso voluntário e remessa necessária; recurso especial por divergência; embargos interrompem o prazo; sem recurso hierárquico contra decisão definitiva favorável ao contribuinte.
  • Art. 208-D: 20 dias úteis para impugnação, recurso voluntário e especial, 5 para embargos; pauta com 10 dias; recesso de 20/12 a 20/01; provas na primeira oportunidade, salvo força maior, fato superveniente ou contraposição.
  • Arts. 208-E e 208-F: ação judicial com o mesmo objeto é renúncia ao recurso administrativo; decisões fundamentadas e publicadas.
  • Art. 208-G e art. 194-A: vinculam súmula vinculante, repercussão geral e repetitivo transitados, controle concentrado, resolução do Senado e súmula do tribunal administrativo; matéria decidida a favor do contribuinte não gera auto nem inscrição; parecer da Fazenda em 90 dias úteis.
  • Art. 208-H: nulos os atos de autoridade incompetente e os lançamentos sem fundamentação; comparecimento supre a intimação irregular; a nulidade não se pronuncia se o mérito favorecer o sujeito passivo.
  • Arts. 208-I e 208-J: rito diferenciado por valor ou porte; sobrestamento automático quando STF ou STJ suspendem os processos judiciais, com autos apartados para o que for independente.
  • Arts. 113-A e 142: teto de 75%, 100% no dolo e 150% na reincidência; reduções de 50%, 40%, 30% e 20%, dez pontos acima em programa de conformidade; sem redução para devedor contumaz e nunca sobre o tributo.
  • Arts. 211-A e 211-B: dois anos para os entes adotarem, no mínimo, a dosimetria e as regras do processo; sem adaptação, aplicação direta dos arts. 208-A a 208-J.

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